Artigo · Atualidade · 8 min de leitura
Programa PURSUE (2026): o que muda com a desclassificação de Trump
O governo dos EUA lança sistema formal de desclassificação de registros UAP
O governo dos EUA lança sistema formal de desclassificação de registros UAP
Em 8 de maio de 2026, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos — denominação oficial adotada após a reorganização do antigo Departamento de Defesa, efetivada no início do governo Trump — publicou a diretiva de criação do PURSUE (Presidential Unsealing and Reporting System for UAP Encounters), o primeiro mecanismo federal estruturado para liberar sistematicamente registros governamentais sobre UAP (Unidentified Anomalous Phenomena, Fenômenos Anômalos Não Identificados) ao público civil.
A iniciativa não surgiu do nada. Ela é a execução operacional de mandatos legislativos acumulados desde 2022, em particular a UAP Disclosure Act inserida na NDAA (National Defense Authorization Act, Lei de Autorização de Defesa Nacional) de 2024 — aprovada pelo Congresso e sancionada em dezembro de 2023. Aquela lei exigia a criação de um repositório central de registros UAP e estabelecia prazos para revisão e liberação de material classificado.
O PURSUE é, em essência, a resposta executiva a esse mandato.
O que é o PURSUE e como ele funciona
O programa estabelece um processo em múltiplas etapas para revisão, desclassificação e publicação de registros federais relacionados a UAP. O fluxo começa com a identificação de documentos em posse de agências militares e de inteligência, passa por uma junta de revisão interagências e termina com a publicação em repositório público acessível via portal federal.
A diretiva de 8 de maio de 2026 especifica que o sistema opera sob supervisão do AARO (All-domain Anomaly Resolution Office, Escritório de Resolução de Anomalias em Todos os Domínios), criado pelo Departamento de Defesa em julho de 2022, que continua funcionando como braço técnico mesmo sob a nova nomenclatura institucional.
O mecanismo prevê ciclos de liberação — chamados internamente de "releases" — com frequência trimestral no primeiro ano. Cada release passa obrigatoriamente por três filtros: segurança operacional, proteção de fontes e métodos, e revisão de privacidade de pessoal militar identificado nos registros.
"O objetivo do PURSUE não é responder à questão da natureza dos fenômenos, mas garantir que o registro histórico do governo americano sobre esses eventos seja acessível ao público conforme exige a lei."
— Diretiva PURSUE, Seção 1.2, Departamento de Guerra, 8 mai. 2026
A origem legislativa: da NDAA ao ato executivo
A UAP Disclosure Act de 2024 foi a peça central que forçou a ação do Executivo. O texto, de autoria bipartidária dos senadores Chuck Schumer e Mike Rounds, definia um prazo de 18 meses para que o Executivo catalogasse e iniciasse a revisão de todos os registros federais sobre UAP produzidos desde 1945.
O prazo legal expirava em junho de 2025. O governo Trump, que havia assumido em janeiro daquele ano, não cumpriu a data-limite, mas publicou uma ordem executiva complementar em março de 2026 determinando ao recém-renomeado Departamento de Guerra que estabelecesse o mecanismo de liberação até 30 de junho de 2026. O PURSUE foi lançado antes desse prazo interno.
Há um precedente relevante: a lei de 1992 que criou o ARRB (Assassination Records Review Board, Conselho de Revisão de Registros de Assassinato), responsável pela desclassificação de documentos sobre o assassinato de John F. Kennedy. A estrutura do PURSUE segue arquitetura semelhante — junta de revisão independente, prazos definidos em lei e obrigação de justificar qualquer retenção de material.
O que o PURSUE prevê liberar
A diretiva lista categorias específicas de material sujeito ao processo de desclassificação. Entre elas:
- Registros audiovisuais (vídeo e fotografia) de encontros UAP documentados por aeronaves militares ou navais, incluindo material ainda não tornado público dos sistemas FLIR (Forward-Looking Infrared, Infravermelho de Visão Frontal) e radar
- Relatórios de briefing preparados para congressistas e altos funcionários do Executivo sobre UAP entre 1947 e 2024
- Documentos relativos aos programas AAWSAP (Advanced Aerospace Weapon System Applications Program, Programa de Aplicações de Sistemas de Armas Aeroespaciais Avançadas, ativo entre 2007 e 2012) e AATIP (Advanced Aerospace Threat Identification Program, Programa de Identificação de Ameaças Aeroespaciais Avançadas, ativo entre 2007 e 2012 e continuado informalmente depois)
- Análises técnicas de materiais físicos coletados em campo, com metodologia de cadeia de custódia
- Comunicações internas entre agências sobre eventos de impacto operacional classificado
A diretiva é explícita ao excluir da liberação imediata qualquer material que possa comprometer capacidades de coleta de inteligência ativa ou revelar a geometria exata de sensores de aeronaves ainda em operação.
Release 1: os cinco documentos já publicados
A primeira rodada de liberações ocorreu simultaneamente ao lançamento do PURSUE, em 8 de maio de 2026. O Departamento de Guerra disponibilizou cinco documentos na versão inicial do repositório público:
1. Memorando DIA/UAP-1952-WASH — Comunicação interna da DIA (Defense Intelligence Agency, Agência de Inteligência de Defesa) datada de 1952, descrevendo protocolo de coleta de dados sobre avistamentos próximos a instalações nucleares no Estado de Washington. O documento estava parcialmente desclassificado desde 2017; a Release 1 removeu as últimas redações.
2. Relatório de Análise AAWSAP-2009-NV — Sumário técnico produzido no âmbito do AAWSAP em 2009, descrevendo características de propulsão observadas em fenômeno registrado sobre Nevada. O documento confirma que o AAWSAP produziu pelo menos 38 relatórios técnicos entre 2008 e 2011 — número superior ao citado em audiências do Congresso de 2023.
3. Transcrição de Briefing SSG-UAP-2017 — Registro da reunião do SSG (Senior Steering Group, Grupo Diretor Sênior) sobre UAP realizada em março de 2017, na qual autoridades militares debateram os vídeos posteriormente conhecidos como FLIR1, Gimbal e GoFast, meses antes de sua divulgação pública pelo The New York Times em dezembro daquele ano.
4. Avaliação Técnica NAVAIR-2004-SD — Documento da NAVAIR (Naval Air Systems Command, Comando de Sistemas Aéreos Navais) elaborado após o incidente da USS Nimitz em novembro de 2004, ao largo de San Diego. A versão liberada inclui análise de assinatura radar do objeto registrado pelo sistema AN/APG-73.
5. Comunicado Conjunto NORAD/NORTHCOM-UAP-2014 — Memorando de coordenação entre o NORAD (North American Aerospace Defense Command, Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte) e o USNORTHCOM (United States Northern Command, Comando Norte dos Estados Unidos) sobre protocolos de intercâmbio de dados UAP a partir de 2014, revelando que os dois comandos mantinham banco de dados separados até aquela data.
Cronograma de releases e como acompanhar
A diretiva PURSUE prevê o seguinte calendário para o primeiro ano de operação:
| Release | Previsão | Foco declarado |
|---|---|---|
| Release 1 | 8 mai. 2026 | Documentos históricos pré-2010 e incidente Nimitz |
| Release 2 | agosto 2026 | Registros AATIP e programa UAP Task Force (2019-2022) |
| Release 3 | novembro 2026 | Vídeos e telemetria de radar, período 2014-2021 |
| Release 4 | fevereiro 2027 | Material de aliados via acordos de compartilhamento FVEY |
O cronograma é indicativo. A diretiva prevê que atrasos motivados por reclassificações de emergência devem ser comunicados ao Congresso com antecedência mínima de 30 dias.
O repositório público está disponível em pursue.defense.gov e permite busca por data, agência de origem e categoria de documento. Cidadãos com pedidos de FOIA (Freedom of Information Act, Lei de Liberdade de Informação) pendentes relacionados a UAP recebem notificação automática quando documentos de sua solicitação entram no fluxo PURSUE.
O que permanece em aberto
A criação do PURSUE não encerra os debates institucionais sobre o tema. Pelo menos dois pontos continuam sem resposta clara nos documentos publicados até agora.
O primeiro é a questão dos programas SAP (Special Access Programs, Programas de Acesso Especial) relacionados a UAP. A diretiva menciona que esses programas serão revisados, mas não estabelece prazo para eventual liberação — e a revisão de SAPs exige autorização do Executivo caso a caso, fora do fluxo padrão do PURSUE.
O segundo é o status do que a UAP Disclosure Act de 2024 chamava de "registros de não-humano" — categoria que gerou controvérsia durante as audiências do Congresso em 2023 e 2024. A diretiva de 8 de maio de 2026 não utiliza essa terminologia, referindo-se apenas a "registros UAP" sem qualificação adicional sobre a natureza dos fenômenos documentados.
Perguntas frequentes
O PURSUE já confirmou a existência de inteligência extraterrestre?
Não. O programa é um mecanismo de desclassificação e publicação de registros governamentais. Os documentos liberados descrevem observações e análises técnicas. Nenhum dos cinco documentos da Release 1 afirma ou implica origem extraterrestre dos fenômenos registrados.
O "Departamento de Guerra" é uma nova agência?
Não é uma nova agência, mas uma renomeação. Em janeiro de 2026, o governo Trump reverteu o nome "Departamento de Defesa" — adotado em 1947 — para "Departamento de Guerra", designação usada entre 1789 e 1947. As funções, estrutura e pessoal permanecem os mesmos. O AARO continua operando dentro dessa estrutura.
Cidadãos brasileiros podem acessar os documentos do PURSUE?
Sim. O repositório pursue.defense.gov é público e acessível internacionalmente sem necessidade de cadastro. Os documentos estão em inglês; não há previsão de tradução oficial.
O que é o AATIP e por que ele aparece nos documentos?
O AATIP foi um programa do Pentágono ativo entre 2007 e pelo menos 2012, financiado inicialmente com 22 milhões de dólares via emenda orçamentária do senador Harry Reid. Sua existência foi confirmada pelo Departamento de Defesa em 2017. Parte de seus relatórios técnicos nunca foi tornada pública — a Release 2, prevista para agosto de 2026, deve incluir parte desse material.
Como o PURSUE se diferencia dos pedidos de FOIA comuns?
Um pedido de FOIA é reativo — o cidadão solicita e a agência tem prazo para responder. O PURSUE é proativo: o governo identifica e libera documentos independentemente de solicitação individual. Pedidos FOIA pendentes sobre UAP são integrados ao fluxo do PURSUE, o que pode acelerar respostas em casos enquadráveis nas categorias do programa.
Saiba mais
Documentos referenciados
Seção 2 do Arquivo FBI 62-HQ-83894: Documentos Recém-Desclassificados (2026)
FBI · 2026-05-08
Serial 220: O Registro Interno que Formalizou a Posição do Bureau sobre OVNIs
FBI · 2026-05-08
Comando de Material Aéreo (1946–1947): Memorandos Sobre Avistamentos de Discos Voadores
DOW · 2047-12-30
DOW 1948: Memorandos e Formulários sobre Investigações de Discos Voadores — Volume 1
DOW · 2048-06-15
Relatório COMETA (1999): OVNIs e Defesa — O Que Devemos Preparar?
NASA · 2026-05-08