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Artigo · Casos · 9 min de leitura

Os 4 vídeos navais autorizados pelo Pentágono: Tic Tac, Gimbal, GoFast e Aguadilla

Quatro vídeos, uma mesma questão sem resposta

Quatro vídeos, uma mesma questão sem resposta

O Departamento de Defesa dos Estados Unidos (DoD) autenticou publicamente quatro gravações de fenômenos aéreos não identificados captadas por sensores militares e governamentais entre 2004 e 2015. A autenticação — confirmação de que os arquivos são genuínos e não foram adulterados — não equivale a uma explicação. Nenhum dos quatro vídeos recebeu do DoD uma identificação conclusiva do objeto ou fenômeno registrado.

Essa distinção é o centro de toda cobertura responsável sobre o tema.


O que significa "autenticado" — e o que não significa

Quando o Pentágono diz que um vídeo é autêntico, está afirmando que o arquivo provém de sistemas militares reais, que a cadeia de custódia do material é verificável e que não há evidência de manipulação digital.

Isso não significa que o DoD identificou o que está no vídeo. Tampouco significa que descartou hipóteses convencionais. Em nenhum dos quatro casos o governo publicou uma conclusão definitiva sobre a natureza do objeto registrado.

O AARO (All-domain Anomaly Resolution Office) — escritório criado em 2022 pelo DoD para centralizar a análise de UAP (Unidentified Aerial Phenomena, denominação oficial adotada em substituição a "OVNI") — publicou análises técnicas de alguns desses casos em seu relatório histórico de 2024. A profundidade dessas análises varia consideravelmente entre os quatro vídeos.


Tic Tac — USS Nimitz, novembro de 2004

Contexto operacional

Em novembro de 2004, o grupo de batalha do porta-aviões USS Nimitz (CVN-68) realizava exercícios de treinamento a cerca de 160 quilômetros a sudoeste de San Diego, Califórnia. Pilotos do esquadrão VFA-41 Black Aces foram vetorizados pelo cruzador USS Princeton (CG-59), que rastreava objetos anômalos por radar por aproximadamente uma semana antes do incidente visual.

O piloto Cmdr. David Fravor e a Cmdr. Alex Dietrich relataram ter visto um objeto branco, oval, sem asas visíveis, de aproximadamente 12 metros de comprimento, manobrar sobre uma perturbação na superfície do oceano. O objeto acelerou abruptamente quando Fravor tentou aproximação.

O que a câmera registrou

O vídeo denominado FLIR1 foi gravado por um segundo voo, minutos depois do avistamento de Fravor, utilizando um sistema FLIR (Forward-Looking Infrared) acoplado ao F/A-18F. O objeto aparece como uma forma oval aquecida em relação ao fundo frio do céu. O operador de armas a bordo — identificado posteriormente como Chad Underwood — manteve o bloqueio do alvo por alguns segundos antes de o objeto desaparecer da tela.

O vídeo circulou de forma não oficial por anos antes de a empresa To The Stars Academy of Arts & Science publicá-lo em dezembro de 2017. O Pentágono confirmou a autenticidade do arquivo em setembro de 2019, em resposta a consultas da imprensa.

O AARO, em seu Historical Record Report Vol. 1 (2024), classificou o caso Nimitz como "não resolvido" e reconheceu limitações nos dados disponíveis para análise retrospectiva.


Gimbal — USS Theodore Roosevelt, janeiro de 2015

Contexto operacional

Em janeiro de 2015, pilotos do grupo de batalha do porta-aviões USS Theodore Roosevelt (CVN-71), operando ao longo da costa leste dos EUA, registraram múltiplos objetos anômalos ao longo de várias semanas. O vídeo conhecido como Gimbal foi gravado com o sistema ATFLIR (Advanced Targeting Forward-Looking Infrared), uma câmera de targeting de geração mais recente que o FLIR utilizado em 2004.

O que a câmera registrou

O objeto aparece como uma forma alongada, aquecida, sem propulsão visível. O elemento mais discutido na gravação é a rotação aparente do objeto enquanto o caça faz uma curva — pilotos fora de quadro comentam "olha aquela coisa rotacionando". Alguns analistas técnicos, incluindo pesquisadores que publicaram no Journal of Geophysical Research em 2023, argumentam que a rotação observada é um artefato óptico do sistema ATFLIR durante desbloqueio de gimbal, e não rotação física do objeto.

O AARO não publicou, até a data de redação deste artigo, uma determinação técnica conclusiva sobre o Gimbal. O arquivo foi confirmado como autêntico pelo Pentágono em setembro de 2019, juntamente com o FLIR1.

"Reconfirmamos que esses três vídeos circularam não classificados e são, de fato, gravações reais de fenômenos aéreos não identificados."
— Declaração do Pentágono ao New York Times, 27 de abril de 2020


GoFast — USS Theodore Roosevelt, fevereiro de 2015

Contexto operacional

O terceiro vídeo confirmado pelo DoD foi gravado pelo mesmo grupo de batalha, semanas após o Gimbal, também com câmera ATFLIR. As circunstâncias operacionais são semelhantes: patrulha de rotina, costa leste dos EUA, altitude e velocidade do caça registradas nos dados sobrescritos na imagem.

O que a câmera registrou

O vídeo mostra um objeto se movendo rapidamente em baixa altitude sobre o oceano. A denominação GoFast vem de comentários de pilotos captados no áudio da gravação. Geometricamente, o objeto aparece pequeno e se desloca paralelamente à superfície do mar com o que os pilotos descrevem como velocidade excepcional.

Uma análise física publicada por Mick West (2021) no Metabunk — e referenciada posteriormente em discussões técnicas do AARO — sugere que parte da velocidade aparente do objeto pode ser explicada por paralaxe: o objeto estaria em altitude baixa, e o cálculo de velocidade relativa dependeria criticamente de qual altitude se assume para o alvo. Se o objeto estivesse a poucos metros da superfície do mar, a velocidade real seria substancialmente menor do que a impressão visual sugere.

O AARO não publicou uma determinação conclusiva sobre o GoFast. O vídeo foi confirmado pelo Pentágono em abril de 2020.


Aguadilla — Porto Rico, abril de 2013

Contexto e distinção dos outros três

O vídeo de Aguadilla difere dos anteriores em origem institucional. A gravação não provém da Marinha dos EUA, mas do CBP (U.S. Customs and Border Protection), agência de fronteiras vinculada ao Departamento de Segurança Interna. Foi captada por uma câmera infravermelha instalada em aeronave de patrulha sobre a costa noroeste de Porto Rico, próximo ao Aeroporto Rafael Hernández, na cidade de Aguadilla.

A data registrada é 25 de abril de 2013. O objeto causou interrupção temporária das operações de pouso no aeroporto antes de se dirigir ao oceano.

O que a câmera registrou

O vídeo infravermelha mostra um objeto de difícil classificação: ele parece se mover em velocidade irregular, muda de direção e, em determinado momento, aparenta se dividir em dois objetos — ou passa pela superfície da água sem desaceleração aparente. A sequência de imersão/emersão do oceano é o elemento mais discutido tecnicamente.

O SCU (Scientific Coalition for UAP Studies) publicou em 2015 uma análise técnica de 161 páginas — o documento mais detalhado já produzido sobre o caso — concluindo que o objeto não correspondia a nenhuma aeronave conhecida, drone ou animal identificável. A análise estimou velocidades entre 65 e 90 mph e observou que o objeto não acionou nenhum transponder registrado pelas torres de controle.

A análise do AARO

O AARO incluiu o caso Aguadilla em seu Historical Record Report Vol. 1 (2024) e o designou como "não resolvido". Esta é a análise oficial mais recente do governo americano sobre o caso. O relatório reconhece a complexidade da gravação, mas não oferece identificação do objeto.

O Aguadilla é o único dos quatro vídeos que recebeu, até hoje, uma análise pública detalhada por parte do AARO — ainda que essa análise resulte em "não resolvido" e não em explicação.


O que une os quatro casos — e o que os diferencia

Os quatro vídeos compartilham características documentais importantes: todos foram gravados por sensores governamentais calibrados, todos envolvem operadores treinados, e todos passaram por algum grau de verificação institucional antes da divulgação pública.

As diferenças são igualmente relevantes. O FLIR1 e o Gimbal/GoFast provêm de plataformas de combate da Marinha dos EUA, com dados de telemetria associados. O Aguadilla foi gravado por uma agência civil de fronteiras com protocolo operacional diferente. Os três vídeos navais têm dados de altitude e velocidade do caça registrados na imagem; o Aguadilla não.

Nenhum dos quatro foi "explicado" no sentido técnico do termo — isto é, nenhum recebeu do DoD uma identificação que cierre o caso. O status oficial de todos é variação de "não resolvido" ou "análise inconclusiva".


Por que esses vídeos importam juridicamente e institucionalmente

A autenticação pelo Pentágono em 2019-2020 foi um ponto de inflexão. Ela encerrou o debate sobre a autenticidade dos arquivos e transferiu o ônus da prova: a questão deixou de ser "são reais?" e passou a ser "o que são?".

Esse deslocamento teve consequências legislativas. O National Defense Authorization Act de 2022 mandatou a criação do AARO. A Intelligence Authorization Act de 2023 estabeleceu requisitos de reporte e criou o UAPTF (UAP Task Force), predecessor direto do AARO. Audiências públicas no Senado americano em 2023 e 2024 citaram explicitamente os vídeos navais como parte do registro de evidências que justificam supervisão congressional.

Os quatro vídeos, portanto, não são apenas objetos de curiosidade pública. São documentos que produziram consequências institucionais mensuráveis.


Perguntas frequentes

O Pentágono disse que os vídeos mostram aliens?

Não. O Pentágono confirmou que os vídeos são autênticos e que os objetos registrados permanecem não identificados. Nenhum documento oficial do DoD ou do AARO afirma que os objetos têm origem extraterrestre. Essa distinção é fundamental.

Os vídeos foram liberados voluntariamente pelo governo americano?

Não inteiramente. O FLIR1, o Gimbal e o GoFast foram vazados para a mídia pela To The Stars Academy em 2017 antes da confirmação oficial. A autenticação pelo Pentágono veio como resposta à circulação pública, não como iniciativa de transparência proativa. O Aguadilla foi divulgado pela SCU em 2015 e só foi analisado pelo AARO em 2024.

O que é exatamente o AARO e que autoridade tem sobre esses casos?

O AARO é o escritório do DoD responsável pela detecção, identificação e atribuição de objetos anômalos no espaço aéreo, submarino e espacial. Foi criado em julho de 2022 e tem autoridade para acessar registros classificados de múltiplas agências. Seus relatórios ao Congresso são a principal fonte oficial pública sobre UAP.

Por que o vídeo de Aguadilla é menos conhecido se é tecnicamente mais complexo?

Principalmente por origem institucional. Vídeos da Marinha, associados a pilotos de combate identificáveis como Cmdr. Fravor, têm maior valor narrativo jornalístico. O Aguadilla foi divulgado por um grupo de pesquisa independente, sem porta-vozes militares associados, o que reduziu sua visibilidade inicial na imprensa convencional.

Existe alguma explicação convencional que cubra todos os quatro casos?

Não existe uma hipótese única publicada pelo governo americano que cubra os quatro. Análises independentes propõem explicações parciais para aspectos específicos de cada vídeo — artefatos ópticos do ATFLIR no Gimbal, paralaxe no GoFast — mas nenhuma dessas hipóteses foi adotada pelo AARO como explicação oficial. O status de "não resolvido" permanece para todos os quatro.


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