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O que é UAP? Glossário completo dos termos militares e científicos
De UFO a UAP: uma mudança de linguagem com consequências institucionais
De UFO a UAP: uma mudança de linguagem com consequências institucionais
Em junho de 2021, o ODNI (Office of the Director of National Intelligence, em português Escritório do Diretor de Inteligência Nacional) publicou um documento de nove páginas intitulado Preliminary Assessment: Unidentified Aerial Phenomena. Era a primeira vez que o governo federal dos Estados Unidos reconhecia formalmente, em texto não classificado, que pilotos militares registravam objetos no espaço aéreo que a inteligência americana não conseguia explicar.
O relatório não usou a palavra "disco voador". Não usou "OVNI". Usou UAP — e essa escolha não foi acidental.
Desde então, o termo se tornou o padrão operacional em documentos do Departamento de Defesa, comissões do Congresso e agências científicas. Para quem lê reportagens sobre o assunto, entender o vocabulário técnico é pré-requisito para separar o que os documentos realmente afirmam daquilo que a interpretação popular costuma acrescentar.
O que é UAP — e por que substituiu UFO
UAP significa Unidentified Aerial Phenomena na versão original de 2021, e foi redefinido para Unidentified Anomalous Phenomena pela NDAA (National Defense Authorization Act, Lei de Autorização de Defesa Nacional) de 2022, sancionada em dezembro daquele ano.
A mudança de "aéreo" para "anômalo" foi deliberada. O texto da NDAA 2022 explica que o escopo precisava cobrir não apenas objetos no espaço aéreo, mas também fenômenos subaquáticos e no espaço exterior. Em português, o equivalente estabelecido é Fenômenos Anômalos Não Identificados.
UFO (Unidentified Flying Object, Objeto Voador Não Identificado) é o termo popular que dominou décadas de discussão pública. O problema institucional com "UFO" é duplo: a palavra carrega décadas de associação com cultura pop e teorias de conspiração, o que dificultava relatos sérios por parte de pilotos militares; e o adjetivo "voador" pressupõe deslocamento aéreo, excluindo fenômenos submarinos ou transmedium — aqueles que transitam entre meios físicos distintos.
No Brasil, o equivalente histórico é OVNI (Objeto Voador Não Identificado). A Força Aérea Brasileira utilizou o termo em seus próprios documentos ao longo das décadas de 1950 a 2010, incluindo os arquivos da Operação Prato (1977) e do Noite Oficial (1986). O UFFO mantém o uso de OVNI como sinônimo em contexto histórico brasileiro e UAP para documentação americana contemporânea.
As agências: quem investiga o quê
AARO
O AARO (All-domain Anomaly Resolution Office, Escritório de Resolução de Anomalias em Todos os Domínios) foi criado oficialmente em julho de 2022 pelo Departamento de Defesa dos EUA. É o órgão central de coleta, análise e reporte de UAP desde então.
O AARO publica relatórios semestrais ao Congresso e mantém um portal público em aaro.mil. Seu relatório histórico de março de 2024 analisou 1.652 casos reportados entre 1996 e agosto de 2023, dos quais 1.110 continuavam sem explicação suficiente na data de publicação.
AATIP
O AATIP (Advanced Aerospace Threat Identification Program, Programa de Identificação de Ameaças Aeroespaciais Avançadas) operou entre 2007 e 2012 dentro do Departamento de Defesa com orçamento de US$ 22 milhões, segundo reportagem do New York Times de dezembro de 2017 que tornou o programa público.
O AATIP foi chefiado pelo analista de inteligência Luis Elizondo, que pediu demissão em outubro de 2017 alegando, em carta ao então Secretário de Defesa James Mattis, que o tema não recebia atenção adequada. O DoD confirmou a existência do programa, mas contestou a extensão das funções de Elizondo — ambiguidade que permanece nos registros públicos.
AAWSAP
O AAWSAP (Advanced Aerospace Weapon System Applications Program, Programa de Aplicações de Sistemas de Armas Aeroespaciais Avançadas) é o predecessor direto do AATIP. Criado em 2008 com contrato adjudicado à empresa Bigelow Aerospace Advanced Space Studies (BAASS), produziu relatórios técnicos classificados sobre fenômenos anômalos. A existência do AAWSAP foi confirmada publicamente em 2018 pelo investigador jornalístico George Knapp e pelo Dr. James Lacatski, então funcionário da DIA (Defense Intelligence Agency).
ODNI
O ODNI supervisiona as 18 agências de inteligência dos EUA e foi responsável pelo relatório preliminar de 2021 que formalizou o uso de UAP. O documento de 2021 declarava que das 144 ocorrências analisadas, apenas uma tinha explicação identificada (balão meteorológico).
DoD
O DoD (Department of Defense, Departamento de Defesa dos EUA) é o órgão executor das políticas de investigação de UAP. Abriga o AARO, a Marinha, a Força Aérea e as agências de inteligência militar relevantes para o tema.
Termos jurídicos e de classificação
NDAA
A NDAA é o veículo legislativo anual que define o orçamento e as políticas de defesa dos EUA. As edições de 2022, 2023 e 2024 incluíram disposições específicas sobre UAP — ampliando mandatos de reporte, criando o AARO e, na versão de 2024, introduzindo o UAP Disclosure Act, que estabelece mecanismos para desclassificação de registros históricos sobre o tema.
FOIA
A FOIA (Freedom of Information Act, Lei de Liberdade de Informação) é o instrumento legal pelo qual jornalistas, pesquisadores e cidadãos americanos podem solicitar documentos governamentais. Grande parte do arquivo histórico de UAP disponível publicamente chegou ao domínio aberto via FOIA — incluindo memorandos internos do FBI e relatórios do Projeto Blue Book da Força Aérea.
CUI
CUI (Controlled Unclassified Information, Informação Não Classificada Controlada) é uma categoria intermediária: o documento não é secreto, mas tem distribuição restrita. Muitos relatórios operacionais de UAP circulam nessa categoria antes de serem liberados ao público.
UAP Disclosure Act
Inserido na NDAA 2024, o UAP Disclosure Act (formalmente Unidentified Anomalous Phenomena Disclosure Act of 2023) criou uma comissão de revisão independente com poderes para acessar e eventualmente desclassificar registros federais sobre UAP acumulados desde 1945. O mecanismo é inspirado na legislação que regulou a abertura dos arquivos sobre o assassinato do presidente Kennedy.
Os quatro incidentes navais de referência
Quatro registros audiovisuais de origem militar americana se tornaram referência nos debates institucionais sobre UAP. Todos foram confirmados como autênticos pelo DoD entre 2019 e 2020.
Tic Tac (2004)
Registrado durante exercício naval no Oceano Pacífico em novembro de 2004, envolvendo o porta-aviões USS Nimitz. Pilotos do esquadrão VFA-41 relataram objeto branco oval, sem superfícies de controle visíveis, capaz de aceleração e manobras sem assinatura de propulsão detectável. O vídeo FLIR associado foi liberado oficialmente pelo DoD em abril de 2020.
Gimbal (2015)
Capturado por sistemas FLIR de aeronave da Marinha em 2015 na costa leste dos EUA. O nome informal "Gimbal" deriva do movimento de rotação aparente do objeto no vídeo. O relatório preliminar do ODNI de 2021 cita o caso como exemplar de fenômeno ainda sem explicação.
GoFast (2015)
Segundo vídeo liberado na mesma data que o Gimbal, também de origem naval e captado na costa leste. Mostra objeto em baixa altitude se deslocando a velocidade aparentemente elevada em relação ao mar, sem assinatura térmica de propulsão no espectro infravermelho.
Aguadilla (2013)
Caso distinto dos três anteriores: foi captado por câmera de segurança de Aduana e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP — Customs and Border Protection) no aeroporto Rafael Hernández, em Aguadilla, Porto Rico, em abril de 2013. O objeto aparece cruzando a pista ativa e, em seguida, mergulhando no oceano — comportamento classificado como transmedium na taxonomia atual. O caso não foi incluído no relatório de 2021, mas é frequentemente citado em análises técnicas independentes.
Termos técnicos de análise
Transmedium: objeto ou fenômeno observado transitando entre diferentes meios físicos — ar, água ou espaço — sem interrupção aparente.
FLIR (Forward-Looking Infrared): sistema de imageamento infravermelho utilizado em aeronaves militares. Os vídeos Tic Tac, Gimbal e GoFast foram todos captados por sistemas FLIR.
AOA (Angle of Attack, Ângulo de Ataque): parâmetro aerodinâmico relevante em análises de desempenho de aeronaves; citado em relatórios do AARO ao comparar comportamentos de UAP com envelopes de voo convencionais.
Five Observables: expressão cunhada por Luis Elizondo para descrever cinco características operacionais recorrentes em relatos de UAP: voo anti-gravidade, aceleração súbita, hipersônica sem assinatura de propulsão, furtividade multi-domínio e manobra transmedium. O termo não é definição oficial do DoD, mas aparece em depoimentos ao Congresso.
Perguntas frequentes
UAP e OVNI são a mesma coisa?
Funcionalmente sim — ambos descrevem fenômenos aéreos não identificados. A diferença é de contexto e período: OVNI é o termo histórico em português e continua válido para documentação brasileira e arquivos anteriores a 2021. UAP é o padrão atual em documentação oficial americana e em análises científicas contemporâneas.
O governo dos EUA confirmou que UAPs são naves alienígenas?
Não. O relatório do ODNI de 2021 afirma explicitamente que os dados disponíveis são insuficientes para determinar a natureza dos fenômenos. O relatório histórico do AARO de 2024 não encontrou evidência verificável de origem não humana em nenhum dos casos analisados.
O que é necessário para um caso ser classificado como UAP e não ser resolvido?
O AARO usa critérios que incluem: dados de múltiplos sensores, ausência de explicação por aeronave conhecida ou fenômeno atmosférico identificável, e relato de fonte verificável (tipicamente piloto ou operador militar certificado). Casos resolvidos como balões, drones comerciais ou artefatos de câmera são retirados da categoria UAP.
O Brasil tem um programa oficial de investigação de UAP?
A Força Aérea Brasileira criou o GEIV (Grupo Especial de Investigação de Eventos Volantes) em 2022, com missão de registrar e analisar ocorrências. O órgão opera em coordenação com o CINDACTA (Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo) e tem protocolo de coleta de dados inspirado parcialmente nas diretrizes do AARO.
O que é FOIA e como cidadãos brasileiros podem usar equivalente nacional?
A FOIA é exclusiva do sistema jurídico americano. No Brasil, o equivalente é a LAI (Lei de Acesso à Informação, Lei nº 12.527/2011), que permite solicitar documentos públicos federais, incluindo os arquivos do Ministério da Aeronáutica sobre OVNIs, disponíveis parcialmente no portal do Arquivo Nacional.
Saiba mais
- Relatório Preliminar do ODNI sobre UAP (2021) — análise completa no UFFO
- Relatório Histórico do AARO (2024) — o que diz o documento de 63 páginas
- Operação Prato (1977) — o arquivo brasileiro desclassificado
- Os vídeos Tic Tac, Gimbal e GoFast: análise técnica dos arquivos liberados pelo DoD
- UAP Disclosure Act: o que muda com a legislação de 2023
Documentos referenciados
NASA — Relatório Final da Equipe de Estudo Independente sobre Fenômenos Aéreos Não Identificados (UAP)
NASA
Agenda da Reunião Pública da Equipe de Estudo Independente de UAP da NASA — 31 de maio de 2023
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NASA Anuncia Reunião Pública da Equipe de Estudo Independente de UAP — 31 de Maio de 2023
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NASA estabelece Equipe de Estudo Independente sobre Fenômenos Aéreos Não Identificados: Termos de Referência
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Serial 164: Registro Interno do FBI sobre Discos Voadores (1947–1968)
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