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AARO: como funciona o escritório de UAP do Pentágono
O escritório federal criado para dar respostas, não especulações
O escritório federal criado para dar respostas, não especulações
Em julho de 2022, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos estabeleceu formalmente o AARO (All-domain Anomaly Resolution Office) — o escritório responsável por detectar, identificar e atribuir objetos e fenômenos anômalos observados nos domínios aéreo, marítimo, subaquático, espacial e — desde emendas posteriores — em cruzamentos entre esses domínios. A criação foi determinada pela NDAA (National Defense Authorization Act) do ano fiscal de 2022, sancionada em dezembro de 2021 por Joe Biden.
O AARO não nasceu do nada. Ele substituiu e absorveu funções do UAPTF (Unidentified Aerial Phenomena Task Force), criado em 2020 pela Marinha norte-americana, e opera sob supervisão conjunta do subsecretário de Defesa para Inteligência e Segurança e do subsecretário de Defesa para Pesquisa e Engenharia. Seu mandato é explicitamente analítico: resolver casos, não acumulá-los.
Antecessores: de onde veio o AARO
Para entender o AARO é necessário recuar até 2007, quando o Pentágono financiou o AAWSAP (Advanced Aerospace Weapon System Applications Program), contrato gerenciado pela DIA (Defense Intelligence Agency) e executado pela empresa Bigelow Aerospace Advanced Space Studies. O AAWSAP gerou os chamados DIRDs (Defense Intelligence Reference Documents) — 38 estudos técnicos sobre fenômenos não convencionais.
Paralelamente, dentro do AAWSAP, funcionou o AATIP (Advanced Aerospace Threat Identification Program), unidade liderada pelo analista Lue Elizondo. A distinção entre AATIP e AAWSAP nunca foi totalmente esclarecida publicamente pelo Pentágono, e documentos do período, obtidos via FOIA (Freedom of Information Act), ainda apresentam lacunas de classificação.
O UAPTF, criado em agosto de 2020 por memorando do subsecretário de Defesa, consolidou as investigações dispersas e produziu o relatório preliminar de junho de 2021 — o primeiro documento governamental norte-americano a tratar UAP como questão de segurança nacional de forma não classificada. O AARO herdou esse repositório e expandiu o escopo institucional.
"O AARO foi criado para garantir que o Departamento de Defesa tenha uma abordagem rigorosa, sistemática e coordenada para a detecção, identificação e atribuição de UAP."
— Comunicado oficial do DoD, 20 de julho de 2022
Estrutura e mandato oficial
O AARO opera com três funções centrais, conforme definido pela NDAA 2022 e ampliado pela NDAA 2023:
Coleta e correlação de dados. O escritório centraliza registros de sensores militares — radar, infravermelho, eletro-óptico e dados de inteligência de sinais — provenientes de todas as forças armadas e agências relevantes, incluindo a NRO (National Reconnaissance Office) e a NSA (National Security Agency).
Análise técnica. Cada caso é submetido a caracterização de desempenho físico: velocidade, aceleração, assinatura de radar, comportamento térmico. O objetivo declarado é identificar explicações convencionais antes de classificar um fenômeno como genuinamente anômalo.
Reporte ao Congresso. A lei exige relatórios periódicos, tanto classificados quanto em versões públicas desclassificadas. Essa obrigação de transparência parcial distingue o AARO de seus predecessores, que operavam quase inteiramente em sigilo.
Liderança: Kirkpatrick e Kosloski
O primeiro diretor do AARO foi o físico Sean Kirkpatrick, que assumiu o cargo em junho de 2022 — antes mesmo da formalização do escritório — e permaneceu até dezembro de 2023. Kirkpatrick tinha histórico na DIA e no DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency) e adotou postura consistentemente cética em declarações públicas e depoimentos ao Congresso.
Em fevereiro de 2024, Jon Kosloski, analista de inteligência com carreira na comunidade de inteligência norte-americana, foi nomeado diretor interino e posteriormente confirmado como diretor permanente. Kosloski manteve a linha analítica institucional de Kirkpatrick, com menor exposição pública.
Os principais relatórios entregues ao Congresso
Annual Report 2023
O primeiro relatório anual público do AARO, referente ao período de maio de 2023 a outubro de 2023 e publicado em janeiro de 2024, analisou 291 novos casos reportados, totalizando mais de 800 casos no repositório histórico do escritório. Os dados indicaram que a maioria dos casos com informação suficiente para análise recebeu atribuição a fenômenos convencionais: balões, drones, detritos, aves, artefatos de sensores.
O relatório admitiu, contudo, que um subconjunto de casos permanece sem resolução devido à qualidade insuficiente dos dados coletados — problema estrutural que o AARO identificou como prioridade técnica. A ausência de sensores calibrados e padronizados nos sistemas militares foi apontada como obstáculo direto à resolução de casos.
Historical Record Report 2024
Em março de 2024, o AARO divulgou o UAP Historical Record Report, Volume 1 — um documento de 63 páginas encomendado pelo Congresso para investigar alegações de programas governamentais secretos relacionados a UAP desde 1945.
O relatório concluiu não haver evidências verificáveis de que o governo norte-americano tenha recuperado tecnologia de origem não humana ou conduzido programas de engenharia reversa sobre esse material. O documento examinou dezenas de entrevistas com ex-funcionários e contratados, além de registros arquivísticos classificados e desclassificados.
"O AARO não encontrou nenhuma evidência credível ou verificável que suporte afirmações de que o governo dos EUA, ou seus contratados privados, recuperou materiais de origem não humana."
— UAP Historical Record Report, Vol. 1, AARO/DoD, março de 2024
O relatório reconheceu que a compartimentação excessiva de programas de inteligência e desenvolvimento de tecnologias avançadas — como o U-2 e o SR-71 na Guerra Fria — gerou, historicamente, observações não identificáveis de boa-fé por pilotos e civis.
Os papers técnicos: óptica como explicação
Uma das contribuições menos discutidas do AARO é a produção de análises técnicas específicas sobre fenômenos ópticos que explicam categorias inteiras de observações UAP. Dois documentos se destacam.
Forced Perspective
O paper sobre Forced Perspective (perspectiva forçada) descreve como objetos distantes, capturados por câmeras com diferentes comprimentos focais ou observados a partir de plataformas em movimento, podem aparentar velocidades e trajetórias fisicamente impossíveis. O efeito é amplificado quando há parallax — diferença de posição aparente de um objeto conforme o ponto de observação muda — combinado com ausência de referências de distância no campo visual.
O documento analisa casos específicos da aviação militar norte-americana em que sensores eletro-ópticos geraram imagens de objetos que pareciam acompanhar aeronaves ou realizar manobras abruptas. A explicação em cada caso envolveu combinação de movimento da câmera, zoom e parallax com objetos a distâncias não determinadas.
Satellite Flaring
O paper sobre Satellite Flaring documenta como satélites em órbita baixa — particularmente aqueles com painéis solares de grande superfície reflexiva — podem gerar flashes de luz extremamente intensos e de curta duração ao refletir a luz solar em ângulos específicos. O fenômeno é bem documentado na astronomia amadora, mas raramente considerado por operadores militares ao registrar observações incomuns.
O AARO correlacionou horários e posições de observações UAP reportadas com o catálogo de trajetórias orbitais mantido pelo Space-Track.org (operado pelo 18th Space Defense Squadron da Força Espacial) e identificou sobreposição significativa entre os dois conjuntos de dados em determinados casos.
Esses dois documentos representam a abordagem metodológica central do AARO: antes de considerar hipóteses extraordinárias, esgotar as explicações baseadas em física e óptica conhecidas.
O que o AARO não é
O AARO não é uma agência de investigação criminal, não tem poder de subpoena e não conduz análise de inteligência estrangeira de forma autônoma — essa função pertence às agências da comunidade de inteligência. O escritório também não tem mandato para investigar alegações de cobertura acobertamento governamental, embora o Historical Record Report de 2024 tenha sido uma resposta direta a pressões do Congresso nesse sentido.
Críticos, incluindo o ex-oficial de inteligência David Grusch — que em 2023 fez declarações públicas e prestou depoimento ao Congresso alegando a existência de programas não autorizados de recuperação de materiais não humanos — argumentam que o AARO tem acesso limitado a compartimentos de acesso especial que seriam relevantes para sua missão. O AARO, em resposta, afirmou ter recebido acesso aos programas identificados como potencialmente relevantes e não encontrado evidências que corroborassem as alegações.
Esse impasse entre denunciantes e a estrutura oficial permanece sem resolução documental pública até a data de publicação deste artigo.
Perguntas frequentes
O AARO é o mesmo que o antigo AATIP?
Não. O AATIP foi um programa dentro do AAWSAP, operado entre 2007 e 2012, vinculado à DIA. O AARO é uma estrutura permanente criada por lei em 2022, com mandato mais amplo, obrigação de reporte ao Congresso e supervisão formal de múltiplas agências. Os dois programas não têm continuidade institucional direta, embora o AARO tenha herdado parte do repositório de casos desenvolvido pelo UAPTF, sucessor funcional do AATIP.
O AARO concluiu que UAPs são aeronaves extraterrestres?
Não. Nenhum relatório público do AARO afirmou isso. Os documentos publicados até 2024 concluem que a maioria dos casos analisados tem explicação convencional e que os casos sem resolução devem-se primariamente à insuficiência de dados de sensores, não à natureza inexplicável dos fenômenos.
Quantos casos o AARO já analisou?
Conforme o Annual Report 2023, o repositório do AARO continha mais de 800 casos acumulados até outubro de 2023. O número inclui casos transferidos do UAPTF e novos reportes desde a criação do escritório em julho de 2022.
O que acontece quando um piloto militar avista algo não identificado?
Desde 2019, a Marinha dos EUA e, posteriormente, outras forças armadas, formalizaram procedimentos de reporte. Observações são documentadas por canais de inteligência e encaminhadas ao AARO para análise. O objetivo declarado é eliminar o estigma histórico associado ao reporte de UAP por militares, que anteriormente poderia prejudicar carreiras.
O Congresso tem acesso aos relatórios classificados do AARO?
Sim. A NDAA exige que o AARO entregue versões classificadas dos relatórios anuais aos comitês de Forças Armadas e Inteligência do Senado e da Câmara. As versões públicas são desclassificações parciais desse material. Parlamentares com acesso classificado têm manifestado publicamente — em graus variados — insatisfação com o nível de detalhe fornecido.
Saiba mais
- [Relatório Preliminar do UAPTF ao Congresso (junho de 2021) — disponível no UFFO Brasil]
- [UAP Historical Record Report, Vol. 1, AARO/DoD (março de 2024) — íntegra traduzida no UFFO Brasil]
- [Relatório Final da Comissão Independente da NASA sobre UAP (setembro de 2023)]
- [Depoimento de Sean Kirkpatrick ao Comitê de Forças Armadas do Senado (julho de 2023)]
- [NDAA 2022, Seção 1683 — texto legislativo que criou o AARO]
Documentos referenciados
NASA — Relatório Final da Equipe de Estudo Independente sobre Fenômenos Aéreos Não Identificados (UAP)
NASA
Agenda da Reunião Pública da Equipe de Estudo Independente de UAP da NASA — 31 de maio de 2023
NASA
Comando de Material Aéreo (1946–1947): Memorandos Sobre Avistamentos de Discos Voadores
DOW · 2047-12-30
Transcrição Gêmeos 7 (1965): Astronautas Lovell e Borman Relatam 'Bogey' e Campo de Partículas em Órbita
NASA · 1965-12-05
Gemini 7 (1965): Astronauta Frank Borman Relata 'Bogey' em Órbita Baixa — Áudio da Missão Divulgado
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