CBS60 · 06 de agosto de 2026
Pilotos da Marinha dos EUA relatam encontros com UAP ao programa 60 Minutes
Reportagem do CBS 60 Minutes reúne depoimentos de pilotos navais e ex-funcionários do Pentágono sobre avistamentos de Fenômenos Aéreos Não Identificados. O Pentágono admite não saber o que são os objetos capturados em vídeo. O Senado americano exige relatório formal ao Diretor de Inteligência Nacional.
Contexto da reportagem
O programa 60 Minutes, da rede CBS, veiculou uma reportagem sobre o reconhecimento oficial do governo dos EUA acerca de Fenômenos Aéreos Não Identificados (UAP — Unidentified Aerial Phenomena), mais conhecidos popularmente como OVNIs (UFOs, na sigla em inglês). A matéria marca um ponto de inflexão: após décadas de negação pública, o Pentágono admitiu formalmente que há objetos em espaço aéreo americano que não consegue identificar.
O Comitê de Inteligência do Senado havia determinado que o Diretor de Inteligência Nacional (ODNI) e o Secretário de Defesa entregassem um relatório sobre os avistamentos — contexto que motivou a publicação desta reportagem.
Luis Elizondo e o AATIP
O ex-funcionário do Pentágono Luis Elizondo é uma das fontes centrais da reportagem. Elizondo passou 20 anos conduzindo operações de inteligência militar — no Afeganistão, no Oriente Médio e em Guantânamo. Em 2008, foi recrutado para integrar o Programa Avançado de Identificação de Ameaças Aeroespaciais (AATIP — Advanced Aerospace Threat Identification Program), um programa de 22 milhões de dólares patrocinado pelo então líder da maioria no Senado, Harry Reid, voltado à coleta e análise de dados sobre veículos aéreos anômalos.
Elizondo assumiu a liderança do AATIP em 2010, com foco nas implicações de segurança nacional dos UAP documentados por militares americanos. Ele descreveu tecnologias observadas com características que desafiam a compreensão científica atual:
"Imagine uma tecnologia que pode suportar de seiscentas a setecentas vezes a força g, voar a treze mil milhas por hora, evadir radares, transitar pelo ar, pela água e possivelmente pelo espaço — e, além disso, não apresenta sinais visíveis de propulsão, sem asas, sem superfícies de controle, e ainda assim desafia os efeitos naturais da gravidade terrestre."
O financiamento do AATIP foi encerrado em 2012, mas Elizondo afirma ter mantido a missão ativa com um grupo reduzido de colaboradores. Frustrado com a resistência interna, pediu demissão do Pentágono em 2017 — não antes de obter a desclassificação de três vídeos de interceptações navais.
O incidente Nimitz (2004)
A reportagem dedica atenção especial ao Incidente Nimitz, ocorrido em novembro de 2004 a cerca de 160 quilômetros a sudoeste de San Diego. O grupo de ataque do porta-aviões USS Nimitz realizava treinamentos quando o radar avançado do cruzador USS Princeton detectou múltiplos veículos aéreos anômalos descendo 80.000 pés em menos de um segundo.
Os pilotos David Fravor — graduado pela escola de voo Top Gun e comandante do esquadrão F-18 do Nimitz — e a tenente Alex Dietrich foram desviados para investigar. Fravor descreveu o objeto:
"Vimos esse pequeno objeto branco com formato de Tic Tac, se movendo acima de uma área de água revoluta do tamanho de um Boeing 737 em um mar azul e calmo."
Ao tentar se aproximar, Fravor relatou que o objeto espelhou seus movimentos, subindo enquanto ele descia, e desapareceu abruptamente. Segundos depois, o Princeton readquiriu o contato a 60 milhas de distância. Outra tripulação conseguiu, brevemente, travar a câmera de mira no objeto antes que ele sumisse novamente.
Dietrich, que nunca havia falado publicamente sobre o incidente, justificou sua participação:
"Eu estava em uma aeronave do governo, estava em serviço, e por isso sinto a responsabilidade de compartilhar o que posso — e é desclassificado."
Os relatórios da tripulação foram arquivados sem resposta oficial por cinco anos, até que Elizondo localizou o caso durante suas investigações no AATIP.
Avistamentos do Esquadrão de Graves (2014–2015)
O ex-piloto naval Tenente Ryan Graves relatou que seu esquadrão de F-18 começou a avistar UAP em 2014, após a atualização do radar das aeronaves, que passou a permitir rastreamento com câmeras infravermelhas. Os objetos foram observados pairando sobre espaço aéreo restrito a sudeste de Virginia Beach.
Graves afirmou que os pilotos viam esses fenômenos diariamente, por pelo menos dois anos. Um vídeo capturado por câmera de mira em 2015, ao largo de Jacksonville (Flórida), mostra um objeto em rotação a grande altitude. As vozes da tripulação demonstram surpresa:
"Está girando... meu Deus... todos vão contra o vento... o vento está a 120 [nós] vindo do oeste."
Graves classificou os objetos como potencial risco à segurança nacional:
"Se fossem jatos táticos de outro país parados lá em cima, seria um problema enorme. Mas porque parece diferente, não estamos dispostos a encarar o problema de frente."
Os pilotos especulavam sobre três hipóteses: tecnologia secreta americana, veículo de espionagem adversário (Rússia ou China), ou algo de origem desconhecida.
Christopher Mellon e o vazamento para a imprensa
Christopher Mellon, ex-subsecretário adjunto de Defesa para Inteligência nas administrações Clinton e George W. Bush, descreve como, em 2017, adquiriu os três vídeos navais desclassificados por Elizondo e os repassou ao New York Times como cidadão privado — um ato que ele mesmo qualificou como "bizarro e infeliz, mas necessário":
"É bizarro e infeliz que alguém como eu precise fazer algo assim para colocar uma questão de segurança nacional como essa na agenda."
Mellon e Elizondo passaram a contar sua história para veículos de imprensa, para o canal History e para membros do Congresso, com a estratégia deliberada de mobilizar a opinião pública para pressionar o Legislativo e, em seguida, o Departamento de Defesa.
Resposta institucional e demandas do Senado
Em agosto de 2020, o Pentágono reativou a estrutura de investigação, renomeada como Força-Tarefa UAP (UAP Task Force). Militares passaram a ser encorajados a reportar encontros incomuns.
O senador Marco Rubio, então presidente do Comitê de Inteligência, solicitou formalmente um relatório não classificado ao ODNI e ao Pentágono:
"Não posso permitir que o estigma nos impeça de ter resposta a uma pergunta muito fundamental. Quero que levemos isso a sério e que haja um processo para analisar os dados cada vez que chegarem — um lugar onde tudo seja catalogado e constantemente analisado até que tenhamos respostas."
A reportagem completa em inglês está disponível no canal oficial do CBS 60 Minutes no YouTube.
Glossário
- UAP
- Fenômeno Aéreo Não Identificado (Unidentified Aerial Phenomena) — terminologia oficial adotada pelo Pentágono em substituição a 'UFO'
- AATIP
- Programa Avançado de Identificação de Ameaças Aeroespaciais (Advanced Aerospace Threat Identification Program) — programa do Pentágono ativo de 2008 a 2012 para investigar UAP
- ODNI
- Escritório do Diretor de Inteligência Nacional — instância que coordena as agências de inteligência dos EUA e foi solicitada a produzir relatório sobre UAP
- UAP Task Force
- Força-Tarefa UAP — estrutura reativada pelo Pentágono em agosto de 2020 para suceder o AATIP e centralizar relatos de encontros militares com UAP
- Top Gun
- Escola de Combate Aéreo da Marinha dos EUA (TOPGUN) — referência à qualificação avançada do piloto David Fravor
- CAS (câmera de mira / targeting camera)
- Sistema eletro-óptico de bordo utilizado para identificar e rastrear alvos; os vídeos UAP foram capturados por esse sistema
- G-force
- Força g — unidade que mede aceleração em múltiplos da gravidade terrestre; os objetos descritos supostamente suportariam de 600 a 700 g, valor incompatível com qualquer aeronave conhecida
- FOIA
- Lei de Liberdade de Informação (Freedom of Information Act) — lei americana que permite acesso a documentos governamentais; base para desclassificação de registros UAP
Perguntas frequentes
- O Pentágono confirmou que os objetos filmados são de origem extraterrestre?
- Não. O Pentágono admitiu apenas que não consegue identificar os objetos. A reportagem não atribui origem extraterrestre a nenhum avistamento.
- O que é o AATIP e como foi financiado?
- O AATIP (Programa Avançado de Identificação de Ameaças Aeroespaciais) foi um programa de 22 milhões de dólares patrocinado pelo senador Harry Reid para investigar veículos aéreos anômalos. Seu financiamento foi encerrado em 2012.
- O que os pilotos do USS Nimitz viram em 2004?
- Fravor e Dietrich descreveram um objeto branco com formato de Tic Tac, sem asas nem plumas de exaustão, que espelhou os movimentos do F-18 de Fravor e desapareceu abruptamente. O USS Princeton reacquiriu o contato a 60 milhas de distância segundos depois.
- Como os vídeos navais chegaram ao New York Times?
- Christopher Mellon, atuando como cidadão privado em 2017, adquiriu os três vídeos que Elizondo havia obtido desclassificados e os repassou ao jornal, numa tentativa de forçar o debate público e político sobre UAP.
- Com que frequência o esquadrão do Tenente Graves avistava UAP?
- Graves afirmou que pilotos treinando ao largo da costa atlântica viam os objetos todos os dias, por pelo menos dois anos, a partir de 2014.
- Quais hipóteses os pilotos levantaram sobre a identidade dos objetos?
- Tecnologia secreta americana, veículo de reconhecimento de adversário (Rússia ou China) ou algo de origem não identificada. Graves afirmou que a hipótese mais provável, na sua avaliação, era um programa de observação de ameaça estrangeira.
Entidades citadas
- Luis Elizondo· person
- David Fravor· person
- Alex Dietrich· person
- Ryan Graves· person
- Christopher Mellon· person
- Marco Rubio· person
- Harry Reid· person
- USS Nimitz· aircraft
- USS Princeton· aircraft
- AATIP· agency
- UAP Task Force· agency
- November 2004· date
- Virginia Beach· location
- Jacksonville, Florida· location
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