TDB · 07 de agosto de 2026
Uma Origem do Código Genético, Mas Duas Origens da Vida: Cientistas Revelam a Divisão Evolutiva Que Gerou Toda a Vida na Terra
Equipe internacional liderada pela Universidade Heinrich Heine de Düsseldorf identificou como o ancestral comum de toda a vida terrestre se dividiu em bactérias e arqueias independentemente, sugerindo duas origens distintas da vida livre, apesar de um único código genético compartilhado.
Contexto da Pesquisa
Uma equipe internacional de pesquisadores liderada pelo Instituto de Evolução Molecular da Universidade Heinrich Heine de Düsseldorf (HHU), na Alemanha, publicou na revista Science Advances — em 5 de agosto de 2026 — um estudo que reexamina as origens da vida na Terra. O artigo, intitulado "Intermediate Stages in the Origin of Metabolism at a Phosphorylating Hydrothermal Vent", investiga os estágios intermediários do metabolismo de células primordiais e propõe uma conclusão provocadora: houve uma única origem do código genético, mas duas origens independentes da vida livre.
O estudo foi relatado pelo portal jornalístico The Debrief por Ryan Whalen, especializado em ciência e tecnologia.
LUCA e a Bifurcação Original
O ponto de partida da pesquisa é LUCA (Last Universal Common Ancestor — Último Ancestral Comum Universal), o organismo hipotético do qual toda a vida conhecida descende. Há aproximadamente quatro bilhões de anos, as primeiras células teriam emergido em fontes hidrotermais no fundo dos oceanos, ambientes ricos em minerais e gradientes químicos que forneciam energia para reações metabólicas primitivas.
A partir desse ancestral comum, a vida se bifurcou em dois grandes domínios: Bacteria (bactérias) e Archaea (arqueias). A questão central investigada pelo estudo é: essa divisão ocorreu de forma conjunta ou de maneira independente, com cada linhagem desenvolvendo suas capacidades de vida livre por conta própria?
"Veríamos dois tipos muito diferentes de células emergindo, bactérias pioneiras e arqueias pioneiras, fazendo suas primeiras tentativas de vida fora dos limites de uma fonte hidrotermal", afirmou a autora principal Natalia Mrnjavac, bióloga da Universidade de Düsseldorf.
Metabolismo: Da Rocha à Enzima
Um dos achados centrais do estudo é a análise de 420 reações químicas envolvidas no metabolismo primitivo — reações que produzem aminoácidos, bases de RNA e vitaminas a partir de hidrogênio, amônia e dióxido de carbono. Essas reações estão preservadas no código genético moderno, o que permitiu à equipe identificar que cerca de metade das reações de LUCA era catalisada não por enzimas biológicas, mas por metais presentes no ambiente das fontes hidrotermais.
"Metais que ocorrem naturalmente em fontes hidrotermais podem substituir um número surpreendentemente grande de enzimas no metabolismo", disse o co-autor Harun Tüysüz, químico inorgânico do Max-Planck-Institut für Kohlenforschung e do IMDEA Materials Institute, em Madri.
A equipe reconstruiu a trajetória evolutiva da catálise: de um estágio inicial baseado exclusivamente em metais, passando por um estágio híbrido metal-enzima presente em LUCA, até a divergência final das linhagens bacteriana e arqueana. Essa transição foi o que permitiu às células deixar para trás o nicho das fontes hidrotermais e colonizar novos biomas.
A Fonte de Energia da Vida Primitiva
Outra questão central abordada pelo estudo é a origem da energia metabólica. O composto ATP (adenosina trifosfato) é o principal transportador de energia na biologia moderna, mas ele é produzido por enzimas e não está presente em fontes hidrotermais. Os pesquisadores identificaram o paládio — um catalisador natural abundante nesses ambientes — como uma alternativa plausível.
"Quando reagimos fosfito, uma forma de fósforo que ocorre naturalmente em fontes hidrotermais, com compostos orgânicos, obtemos reações de fosforilação metabólica em água durante a noite. Fosfito e paládio substituem ATP e enzimas; é incrível e torna a evolução primitiva muito mais fácil de compreender", declarou o pesquisador Schlikker, conforme citado no artigo.
Duas Origens Independentes da Vida Livre
Para lidar com a complexidade matemática de ordenar centenas de reações químicas interdependentes por grau de complexidade evolutiva, a equipe incorporou cientistas de redes e utilizou um algoritmo de aprendizado de máquina. O resultado indicou que existe uma ordem clara na sequência em que essas reações evoluíram — e que bactérias e arqueias percorreram esse caminho de forma independente.
"Os novos dados deixam apenas uma conclusão", afirmou o autor sênior William Martin. "As linhagens bacteriana e arqueana fizeram a transição para o estado de vida livre de forma independente. Apenas células de vida livre estão vivas."
"Vamos chamar pelo nome", acrescentou Martin. "Estamos olhando para uma origem do código genético, mas duas origens da vida."
A formulação é cientificamente precisa e deliberadamente provocativa: o código genético — o conjunto de regras que traduz sequências de RNA em proteínas — é compartilhado por toda a vida, sugerindo uma única origem química. Mas a vida livre, entendida como células capazes de sobreviver e se reproduzir fora de um nicho geoquímico específico, teria surgido duas vezes, de forma paralela e independente.
Relevância e Limitações
O estudo não aborda diretamente questões de vida extraterrestre ou Fenômenos Aéreos Não Identificados (UAP), e o documento fonte é um artigo de biologia evolutiva publicado em periódico científico revisado por pares (Science Advances). Sua relevância para o campo UAP é indireta: pesquisas sobre as condições mínimas para o surgimento da vida — especialmente em ambientes extremos como fontes hidrotermais — informam os modelos científicos usados na busca por vida fora da Terra, tema que intersecta debates sobre a natureza e origem de UAP de interesse governamental.
O artigo completo em inglês está disponível via The Debrief no endereço: https://thedebrief.org/one-origin-of-the-genetic-code-but-two-origins-of-life-scientists-reveal-the-ancient-evolutionary-split-that-gave-rise-to-all-life-on-earth/
Glossário
- LUCA
- Last Universal Common Ancestor — Último Ancestral Comum Universal; organismo hipotético ancestral de toda a vida terrestre conhecida
- Archaea (Arqueias)
- Um dos três domínios da vida, junto com Bacteria e Eukarya; organismos unicelulares procariontes distintos das bactérias em estrutura molecular e metabolismo
- ATP
- Adenosina trifosfato; principal molécula transportadora de energia no metabolismo celular moderno
- Catálise
- Aceleração de uma reação química por um agente (catalisador) que não é consumido no processo; nas células primitivas, realizada por metais ambientais antes das enzimas
- Fonte hidrotermal
- Abertura no fundo oceânico que libera água aquecida rica em minerais; considerada o ambiente provável para o surgimento das primeiras células
- Fosfito
- Forma reduzida de fósforo que ocorre naturalmente em fontes hidrotermais; identificado no estudo como possível substituto do ATP na fosforilação primitiva
- Paládio
- Metal de transição que atua como catalisador natural; identificado no estudo como agente de fosforilação metabólica em ambientes hidrotermais primitivos
- Metabolismo
- Conjunto de reações químicas que sustentam a vida celular, incluindo produção de energia e síntese de moléculas essenciais
- Código genético
- Sistema de regras pelo qual sequências de nucleotídeos no RNA são traduzidas em sequências de aminoácidos nas proteínas; compartilhado por toda a vida conhecida
Perguntas frequentes
- O que é LUCA e qual é sua importância neste estudo?
- LUCA (Last Universal Common Ancestor — Último Ancestral Comum Universal) é o organismo hipotético do qual toda a vida conhecida na Terra descende. O estudo investiga como LUCA se dividiu nas linhagens de bactérias e arqueias, e conclui que essa divisão ocorreu de forma independente em cada linhagem.
- O que os pesquisadores querem dizer com 'duas origens da vida'?
- Os autores argumentam que, embora o código genético tenha uma única origem (compartilhado por toda a vida), as células de vida livre — capazes de sobreviver fora das fontes hidrotermais — surgiram duas vezes de forma independente: uma vez na linhagem bacteriana e outra na linhagem arqueana.
- Qual era a fonte de energia das primeiras células antes do ATP?
- O estudo aponta o paládio e o fosfito — compostos naturalmente presentes em fontes hidrotermais — como substitutos funcionais do ATP e das enzimas na fosforilação metabólica primitiva.
- Como os pesquisadores determinaram a ordem em que as reações químicas evoluíram?
- A equipe utilizou cientistas de redes e um algoritmo de aprendizado de máquina para ordenar as 420 reações metabólicas analisadas por grau de complexidade, identificando uma sequência evolutiva clara.
- Onde o artigo científico original foi publicado e quando?
- O artigo foi publicado na revista Science Advances em 5 de agosto de 2026, sob o título 'Intermediate Stages in the Origin of Metabolism at a Phosphorylating Hydrothermal Vent'.
- Este estudo tem relação direta com UAP ou vida extraterrestre?
- Não diretamente. O estudo é de biologia evolutiva. Sua relevância para a busca por vida extraterrestre é indireta, ao mapear as condições mínimas para o surgimento da vida em ambientes extremos como fontes hidrotermais.
Entidades citadas
- Natalia Mrnjavac· person
- William Martin· person
- Harun Tüysüz· person
- Heinrich Heine University Düsseldorf (HHU)· agency
- Max-Planck-Institut für Kohlenforschung· agency
- IMDEA Materials Institute· location
- Science Advances· agency
- August 5, 2026· date
- Ryan Whalen· person
- The Debrief· agency
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