uff

TDB · 06 de agosto de 2026

Nova pesquisa sugere que experiências extraordinárias são mais comuns — e mais significativas — do que se esperava

Estudo com mais de 5.000 participantes publicado na PLOS ONE indica que experiências não-ordinárias, como sensação de presença, visões e experiências fora do corpo, são mais prevalentes na população geral do que as taxas clínicas sugerem — e a maioria é descrita como neutra ou positiva.

Contexto

Ao longo da história registrada, seres humanos relataram eventos que desafiam sua compreensão da realidade. Experiências fora do corpo, quase-morte, percepções anômalas e despertares espirituais profundos aparecem em culturas e épocas distintas. A interpretação dessas ocorrências varia: podem ser lidas como fenômenos mitológicos, psicológicos, patológicos ou espirituais, dependendo do contexto cultural e da visão de mundo de cada indivíduo.

Uma nova pesquisa conduzida por Ronald Fischer, do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), em São Paulo, Brasil, e colaboradores, propõe que esse tipo de experiência pode ser mais universal do que se pensava. O estudo foi publicado na revista científica PLOS ONE.

O estudo

A equipe de pesquisadores examinou como milhares de pessoas interpretam experiências incomuns. Um mesmo evento — como uma experiência fora do corpo ou próxima da morte — pode ser lido por uma pessoa como evidência de despertar espiritual e por outra como fenômeno neurológico ou resultado de química cerebral ordinária. Da mesma forma, ouvir vozes é considerado sintoma de doença mental em certas culturas e experiência espiritual ou sobrenatural em outras.

O estudo defende que ambas as perspectivas podem ser válidas, conforme o enquadramento cultural e pessoal de cada indivíduo.

"Experiências como sentir uma presença, ter uma visão ou sentir que você se observa de fora do próprio corpo são muito mais comuns na população geral do que as taxas de diagnóstico clínico sugerem."
— Ronald Fischer

Fischer acrescentou que, na amostra de mais de 5.000 participantes, a maioria dos que relataram tais experiências não estava doente, e a maior parte as descreveu como neutras ou positivas — tanto no momento em que ocorreram quanto ao refletir sobre elas retrospectivamente.

Metodologia

Os pesquisadores primeiro revisaram e validaram o Inventário de Experiências Não-Ordinárias. Em seguida, desenvolveram um questionário para avaliar tanto as influências universais quanto as culturais que moldam as interpretações dos participantes sobre esses eventos.

Após refinamento com base no feedback de 160 participantes brasileiros, o questionário final — composto por 47 questões — foi aplicado a 5.117 indivíduos representativos da população geral.

"Pesquisas anteriores frequentemente falharam em diferenciar a experiência em si de como as pessoas constroem sentido a partir de experiências tão diversas e desafiadoras."
— Ronald Fischer

Segundo Fischer, o diferencial do trabalho está em focar claramente onde e quando essas experiências ocorreram e como as pessoas tentaram atribuir-lhes significado, separando contexto, experiência e processos de construção de sentido.

Principais achados

Implicações clínicas e sociais

Pedro Fortes, pesquisador do IDOR, destacou o que chamou de "incompatibilidade" central dos achados:

"Essas experiências compartilham características com sintomas usados para definir psicose e dissociação, mas são frequentemente observadas em uma amostra da população geral. Nosso estudo de prevalência sugere que elas chegam, na maioria das vezes, em momentos completamente ordinários — quando estamos acordados, alertas e sozinhos — e costumam ser lembradas como significativas, não assustadoras."
— Pedro Fortes

Jorge Moll, neurologista e neurocientista do IDOR, enfatizou que a interpretação importa mais do que a experiência em si:

"Como uma pessoa interpreta uma experiência incomum importa mais do que a própria experiência para determinar se ela se tornará uma fonte de sofrimento ou de significado. Isso tem consequências diretas para como clínicos e familiares respondem quando alguém descreve algo extraordinário."
— Jorge Moll

Fischer reforçou a importância de normalizar essas experiências e remover o estigma associado a elas, ao mesmo tempo em que recomendou cautela:

"Para muitas pessoas, essas experiências podem ser significativas e levar ao crescimento pessoal e ao discernimento. No entanto, também enfatizamos que, se as pessoas sentirem que essas experiências interferem em suas atividades diárias, devem conversar com um profissional ou buscar ajuda de alguém em quem confiem."
— Ronald Fischer

Relevância para estudos de fenômenos anômalos

Embora o estudo não aborde diretamente Fenômenos Aéreos Não Identificados (UAP), sua relevância para o campo é reconhecida por pesquisadores que investigam relatos de experiências associadas a avistamentos. A pesquisa oferece um arcabouço metodológico para distinguir o evento em si do significado que lhe é atribuído — distinção relevante tanto para a psicologia clínica quanto para investigações científicas de relatos anômalos.

O estudo original em inglês está disponível na PLOS ONE e pode ser acessado por meio do link da fonte original em The Debrief.

Glossário

Experiências não-ordinárias
Eventos percebidos pelo indivíduo como fora do padrão ordinário da realidade, como visões, sensação de presença, experiências fora do corpo ou próximas da morte.
Inventário de Experiências Não-Ordinárias
Instrumento de pesquisa validado pelos autores para catalogar e classificar tipos de experiências não-ordinárias relatadas por participantes.
Dissociação
Estado psicológico em que a pessoa sente desconexão entre pensamentos, identidade, consciência e ambiente; mencionado no estudo como fenômeno com sobreposição de características com experiências não-ordinárias.
Psicose
Condição clínica caracterizada por perda de contato com a realidade; o estudo nota que experiências não-ordinárias compartilham características superficiais com sintomas psicóticos, mas ocorrem amplamente na população geral saudável.
PLOS ONE
Public Library of Science ONE — revista científica multidisciplinar de acesso aberto e revisão por pares.
IDOR
Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino — instituição científica brasileira sediada em São Paulo.
Construção de sentido (meaning-making)
Processo pelo qual um indivíduo interpreta e atribui significado a uma experiência, influenciado por fatores culturais, pessoais e contextuais.

Perguntas frequentes

O que são 'experiências não-ordinárias' segundo o estudo?
São eventos que desafiam a compreensão habitual da realidade, como sensação de presença, visões, experiências fora do corpo e quase-morte. O estudo usa o Inventário de Experiências Não-Ordinárias para catalogá-las.
Quantas pessoas participaram da pesquisa?
O questionário final de 47 questões foi aplicado a 5.117 indivíduos representativos da população geral, após refinamento com 160 participantes brasileiros.
A maioria das pessoas que teve essas experiências sofreu algum dano?
Não. 51% relataram efeitos positivos de longo prazo. Apenas 20% reportaram impacto negativo e 25% mencionaram sofrimento ou desconforto.
Em que condições essas experiências geralmente ocorrem?
39% dos participantes estavam sozinhos durante o evento e aproximadamente 57% estavam acordados e alertas no momento da ocorrência.
O estudo sugere que essas experiências são sintomas de doença mental?
Não. O estudo desafia a suposição de que experiências anômalas devem ser vistas primariamente pelo prisma da doença mental, embora recomende buscar ajuda profissional caso interfiram nas atividades diárias.
Qual é a principal conclusão sobre como interpretar essas experiências?
Segundo o neurologista Jorge Moll, a interpretação que a pessoa dá à experiência incomum importa mais do que a experiência em si para determinar se ela se tornará fonte de sofrimento ou de significado.

Entidades citadas

Documentos relacionados