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Operação Prato (1977): o dossiê UAP brasileiro mais documentado
O Dossiê Mais Denso da Aeronáutica Brasileira
O Dossiê Mais Denso da Aeronáutica Brasileira
Em setembro de 1977, a FAB (Força Aérea Brasileira) enviou uma equipe de inteligência militar ao município de Colares, no nordeste do estado do Pará, para investigar uma série de relatos que acumulavam desde o início daquele ano. Moradores descreviam objetos luminosos que surgiam à noite, projetavam feixes de luz sobre pessoas e deixavam marcas físicas nos atingidos. A missão recebeu o nome de código Operação Prato e durou de setembro a dezembro de 1977.
O resultado foi um dossiê de mais de 500 páginas — relatórios técnicos, fotografias, laudos médicos e depoimentos colhidos por militares. O documento ficou classificado por quase três décadas. Em 2005, a FAB disponibilizou parte do acervo ao pesquisador civil Ademar José Gevaerd, tornando a Operação Prato o episódio UAP mais documentado da história brasileira.
Contexto Histórico: O Pará de 1977
O norte do Brasil em 1977 era, em grande parte, região de difícil acesso. A ilha de Colares, localizada na foz do rio Pará, tinha comunicação precária com Belém. Quando os relatos de avistamentos começaram a se multiplicar em comunidades ribeirinhas e insulares, a demanda por resposta oficial chegou ao governador do estado, que a repassou ao Ministério da Aeronáutica.
O contexto político era o da ditadura militar brasileira. A decisão de enviar uma equipe da FAB para registrar os fenômenos — e não apenas desmentir os relatos — reflete uma postura institucional distinta da que prevalecia em agências civis da época. O próprio nome "Operação Prato" foi escolhido por referência ao termo popular "disco voador", mas os documentos militares evitam essa linguagem e adotam a expressão "objetos aéreos não identificados".
O Capitão Hollanda e a Estrutura da Missão
A operação foi liderada pelo então capitão Uyrangê Hollanda Lima, oficial de inteligência da COMAR (Comando Aéreo Regional) de Belém. Hollanda coordenou uma equipe de cerca de oito militares, incluindo fotógrafos e técnicos, que instalaram base de observação em Colares.
A metodologia aplicada seguia protocolos de coleta de inteligência: entrevistas padronizadas com testemunhas, registro fotográfico dos objetos quando possível, documentação das marcas físicas relatadas pelas vítimas e correlação de dados com registros médicos locais. Segundo o próprio dossiê, a equipe conseguiu fotografar e filmar objetos não identificados em múltiplas ocasiões ao longo dos quatro meses de operação.
Em entrevista concedida em 1997 ao pesquisador Gevaerd — poucos meses antes de sua morte —, Hollanda afirmou ter visto os objetos pessoalmente em diversas noites de patrulha. A entrevista foi gravada em vídeo e constitui um dos registros mais citados no debate sobre o caso.
"Nós víamos aquelas coisas. Fotografávamos. Filmávamos. E não tínhamos como explicar o que eram."
— Capitão Uyrangê Hollanda Lima, em entrevista a Ademar José Gevaerd, 1997
O Fenômeno "Chupa-Chupa"
A população local denominou os objetos de "chupa-chupa" — referência direta ao efeito relatado pelas vítimas: feixes de luz que, segundo os depoimentos, causavam sensação de sucção, deixavam marcas avermelhadas na pele, dormência e, em alguns casos, perda temporária de consciência.
O dossiê da FAB registra dezenas de vítimas atendidas pelo serviço médico local com sintomas consistentes entre si: manchas circulares na pele, queimaduras superficiais, queda de cabelo localizada e relatos de fraqueza prolongada. Os laudos médicos anexados ao acervo indicam lesões compatíveis com exposição a fonte de calor ou radiação de baixa intensidade. O documento não atribui causa definitiva às lesões.
As Fotografias do Dossiê
Entre o material desclassificado em 2005 estão fotografias em preto e branco e coloridas de objetos luminosos no céu noturno de Colares. A qualidade técnica varia — parte das imagens foi tirada em condições de baixa luminosidade com equipamento da época — mas algumas mostram fontes de luz com formato definido e movimento atípico em relação a aeronaves convencionais.
A FAB não emitiu laudo técnico público sobre a natureza dos objetos fotografados. O dossiê desclassificado apresenta as imagens sem conclusão oficial sobre sua origem. Esse ponto é relevante: o arquivo brasileiro documenta o fenômeno sem o resolver, o que é diferente de afirmar que o fenômeno foi identificado ou descartado.
O Dossiê de 2005: O Que Foi Desclassificado
A entrega do material ao pesquisador Gevaerd em 2005 foi informal e parcial. A FAB não realizou uma desclassificação formal com publicação em diário oficial — o acervo foi cedido a um civil de forma direta, sem protocolo institucional público. Isso distingue o caso brasileiro do modelo americano de desclassificação via FOIA (Freedom of Information Act).
O material entregue inclui:
- Relatórios de campo redigidos pela equipe de Hollanda
- Fotografias e fotogramas de filme
- Depoimentos de 40 testemunhas civis
- Laudos médicos de vítimas atendidas em Colares e Vigia
- Mapas de ocorrências com geolocalização das observações
O total de páginas catalogadas por Gevaerd aproxima-se de 500. O pesquisador digitalizou o acervo e parte do material está disponível em publicações especializadas e no arquivo do CBUFOn (Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores).
O Que Pode Ainda Estar Classificado
A questão dos documentos não divulgados é central para qualquer análise completa da Operação Prato. Pesquisadores que utilizaram a LAI (Lei de Acesso à Informação, Lei nº 12.527/2011) para solicitar documentos adicionais à FAB receberam respostas indicando a existência de registros ainda não liberados.
Estimativas informais de pesquisadores do setor apontam para um volume de até 2.000 documentos adicionais que poderiam existir nos arquivos da aeronáutica — incluindo relatórios de acompanhamento posterior à operação de 1977, correspondências entre comandos e eventuais análises técnicas realizadas fora do grupo de Hollanda. A FAB não confirmou nem negou publicamente esse número.
O contraste com os Estados Unidos é direto: o AARO (All-domain Anomaly Resolution Office), criado pelo Departamento de Defesa americano em 2022, opera com mandato legal explícito para receber relatos, publicar relatórios anuais e responder a pedidos formais do Congresso. O Brasil não tem equivalente institucional ativo. Pedidos pela LAI continuam sendo o principal mecanismo disponível para pesquisadores civis.
FAB vs. FBI/AARO: Estilos de Arquivo Comparados
A comparação entre o dossiê da Operação Prato e os arquivos americanos revela diferenças metodológicas significativas.
Os documentos do FBI sobre UAP — parte dos quais está disponível no portal The Vault desde 2011 — seguem um padrão de memorandos internos com alto grau de redação (partes censuradas). O formato é burocrático e fragmentado: cada memo é uma peça isolada, raramente conectada a um relatório de síntese. O programa AATIP (Advanced Aerospace Threat Identification Program), ativo entre 2007 e 2012, gerou relatórios técnicos que só vieram a público parcialmente após pressão legislativa.
A Operação Prato, por sua vez, produziu um dossiê integrado: uma missão com início, meio e fim, com equipe identificada, metodologia de campo e material visual vinculado aos relatórios. Em termos arquivísticos, é mais coeso do que a maioria dos registros americanos disponíveis publicamente. A limitação brasileira está na abertura institucional: enquanto o Congresso americano pode convocar diretores do AARO para audiências públicas, o Brasil não desenvolveu mecanismo legislativo equivalente de supervisão sobre esse tema.
A Morte de Hollanda e o Impacto no Registro Histórico
O capitão Uyrangê Hollanda morreu em outubro de 1997, semanas após conceder a entrevista a Gevaerd. A causa registrada foi suicídio. O episódio adicionou uma camada de complexidade ao registro histórico: a principal fonte primária da operação não está disponível para novas entrevistas, e o depoimento gravado em vídeo tornou-se o documento central para qualquer análise de primeira mão.
Pesquisadores que trabalham com o dossiê enfatizam que a entrevista de 1997 deve ser lida como fonte oral sujeita às mesmas ressalvas metodológicas de qualquer depoimento retrospectivo — memória, reinterpretação, contexto emocional. O material documental produzido durante a operação, em 1977, tem peso analítico distinto por ter sido registrado no momento dos eventos.
Perguntas Frequentes
O que foi a Operação Prato?
Foi uma missão de inteligência da Força Aérea Brasileira realizada entre setembro e dezembro de 1977 na ilha de Colares, no Pará. A equipe, liderada pelo capitão Uyrangê Hollanda, investigou relatos de objetos luminosos não identificados que causavam danos físicos em moradores locais. O resultado foi um dossiê de mais de 500 páginas, parcialmente disponibilizado em 2005.
O dossiê da Operação Prato está disponível ao público?
Parte do material foi cedida informalmente ao pesquisador Ademar José Gevaerd em 2005. Não houve desclassificação formal via publicação oficial do governo. Pesquisadores utilizam a Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011) para solicitar documentos adicionais à FAB, com resultados variáveis.
O que eram os "chupa-chupa"?
É o nome dado pela população local aos objetos luminosos que, segundo dezenas de depoimentos coletados pela FAB, projetavam feixes de luz e causavam lesões físicas nos atingidos. Os laudos médicos anexados ao dossiê registram queimaduras e manchas na pele consistentes entre as vítimas. A causa oficial das lesões nunca foi estabelecida publicamente.
A FAB concluiu algo sobre a origem dos objetos?
Não. O dossiê desclassificado não contém conclusão oficial sobre a natureza ou origem dos fenômenos registrados. A operação documentou as ocorrências sem resolvê-las — distinção importante para a leitura do arquivo.
Existe equivalente brasileiro ao AARO americano?
Não. O AARO (All-domain Anomaly Resolution Office) foi criado pelo Departamento de Defesa dos EUA em 2022 com mandato institucional explícito para investigar e reportar sobre UAP. O Brasil não possui órgão equivalente ativo. A FAB conduziu investigações pontuais, como a Operação Prato e a Operação Couve-Flor (1986), mas sem estrutura permanente de monitoramento.
Saiba mais
- [Relatório Anual do AARO ao Congresso Americano (2024) — UFFO Brasil]
- [Operação Couve-Flor (1986): quando a FAB scramblou caças para interceptar UAPs sobre São Paulo — UFFO Brasil]
- [Arquivos UAP do FBI: o que o portal The Vault realmente contém — UFFO Brasil]
- [Lei de Acesso à Informação e pedidos sobre UAP no Brasil: guia prático — UFFO Brasil]
- Dossiê original digitalizado: acervo CBUFOn / publicações de Ademar José Gevaerd (edições da Revista UFO, 2005–2009)
Documentos referenciados
FBI Arquivo 62-HQ-83894: Investigações de Objetos Voadores Não Identificados (1947-1968)
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